Caminhando pela rua cantando alto, dou direções a uns três perdidos no mesmo quarteirão e reafirmo minha teoria de que alguma coisa na minha aparência sugere que eu seja muito inteligente, cordial e realmente conheça a cidade (eu sou tudo isso, mas desconheço quais são os sinais que eu emito a ponto de serem tão universais). Depois de cada informação, coloco de novo os fones de ouvido e volto a andar e cantar.

Até aqui, é coisa que acontece comigo diariamente.
O que vem a seguir é uma coisa muito sensacional, que eu sempre esperei que acontecesse.

Chego no refrão da música esperando o sinal de pedestres abrir. Parado ao meu lado, um desconhecido alto, usando Puma, Camiseteria e Chilli Beans, com os cabelos encaracolados ainda molhados. Estou calma, feliz e empolgada, cantando a música quando olho para o lado e reparo que ele está cantando junto.

Meu coração dispara: conheci o homem-da-minha-vida-de-hoje (eu encontro homens da minha vida diariamente). Ele canta comigo a música e caminha no mesmo sentido que eu. Chego na porta do trabalho, subo as escadas e dou mais uma olhada, pensando pela milésima vez se não é a hora de parar de cantar a música e tentar puxar um papo com o desconhecido cheiroso que começa a trabalhar nos mesmos horário e caminho que eu e certamente vai se esforçar para trombar mais comigo na rua porque, obviamente, ele ficou tão apaixonado comigo que vai querer me ver todos os dias da vida dele e vai me pedir em casamento igual ao Harry da Sally (eu crio histórias de relacionamentos inteiros para os homens da minha vida).

Chegando no topo da escada, olho para trás e lá está ele cantando a música, dançandinho no meio da rua, olhando para mim. Eu abro a porta e entro (ainda cantando a música). E ele continua lá, cantando e dançando e me olhando.

Aí a música acaba, como num filme, no momento certo. Ele fala “Ciao! Ótima música!” Eu respondo “Ciao! Que bom que você também gosta!” E então ele “Desviei meu caminho só porque vi você cantando essa música lá na rua debaixo, foi ótimo cantar com você.” Eu rio tímida, ele dá um tchauzinho e desce a rua de volta e eu fico lá parada com cara de idiota. Porra, nem pra trocar telefone?

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